Pirassununga recebe a Professora Temple Grandin, uma visita histórica

Na próxima semana, terça (4) e quarta-feira (5), a Secretaria Municipal de Meio Ambiente em parceria com importantes instituições locais – APAE e USP de Pirassununga – coorganizam a visita e palestra de uma das mais conceituadas especialistas em bem-estar animal em todo mundo, a professora norte-americana Temple Grandin, atual titular na Colorado State University.

A visita ilustre tem como objetivo relatar experiências da especialista com animais e como o autismo foi “vencido” através deste trabalho, reconhecido internacionalmente. Assim, esta palestra tem este principal objetivo: como os animais vivenciam o mundo.

O primeiro dia desta visita – terça-feira (4) – agendado para acontecer no campus local da Universidade de São Paulo, a professora Temple Grandin profere uma palestra-conferência sobre o bem-estar animal, aberta a esudantes, professores, profissionais e autoridades locais, regionais, estaduais, nacionais e mesmo, internacionais. O tema será avaliação do bem-estar, transporte, abate de animais.

Esta conferência tem o apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e também da Secertaria Estadual da Agricultura, pois ambas pastas ainda desejam avançar nas discussões sobre os marcos regulatórios sobre o bem-estar dos animais.

Já o segundo dia de visita, a partir das 19 horas de quarta-feira (5), nas dependências do Centro de Convenções “Prof.-Dr. Fausto Victorelli”, no Jardim do Lago, em colaboração com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais de Pirassununga (APAE), a professora Temple Grandin vai dividir experiências com o autismo que auxiliou sua carreira acadêmica e profissional, desde seu bacharelado em psicologia, na Franklin Pierce University, seguido do mestrado em zootecnia pela Arizona State University, além do doutorado pela University of Illinois, em Urbana-Champaign.

Segundo comenta o professor-doutor Adroaldo Zanella, da FMVZ/USP, de Pirassununga, a universidade trabalha com animais no campus local com inspiração no conceito desenvolvido pela especialista norte-americana, denominada de “curral anti-estresse”.

Agenda – A agenda a ser cumprida se inicia nesta terça (4), com a palestra “avaliação do bem-estar”, com o professor-dr. Adroaldo José Zanella (FMVZ/USP); em seguida, a professora-dra. Temple Grandin profere sua palestra. À tarde, mais dois professores debatem pela palestra “bem-estar em animais de produção”, e “rede brasileira do bem-estar animal”, respectivamente com os professores-drs. Evaldo Titto e Augustro Gameiro.

Na quarta (5), novamente a professora-dra. Temple Grandin comenta sobre o sistema norte-americano – American Meat Institute; ainda pela manhã, mais três palestras: “serviço de inspeção estadual e federal e bem-estar animal”, com os professores-drs. César Krüger (CIPOA) e Leila Mussi (MAPA); e para finalizar, “serviço de inspeção municipal e bem-estar animal”, com o professor-dr. Elci Lotar Dickel (MAPA).

 

• PERFIL

O nome Temple Grandin atrai multidões de seguidores, inspirados por uma história de superação e que transformou a reservada menina norte-americana na maior autoridade do mundo sobre manejo de animais de produção e bem-estar animal. É impossível falar de bem-estar de animais de produção sem mencionar o nome de Temple Grandin. Ela revolucionou os sistemas de produção animal nos Estados Unidos e no Canadá. Também deixou a sua marca no Brasil. Eu conheci a Temple Grandin em julho de 1988, na cidade de Skara, na Suécia, durante a conferência da Sociedade Internacional de Etologia Veterinária, hoje Sociedade Internacional de Etologia Aplicada. Eu estava iniciando o meu doutorado em Cambridge e participando da minha primeira conferência internacional. O comitê organizador do evento fez um grande esforço para localizar uma bandeira do Brasil, que foi hasteada pela primeira vez no evento desta sociedade.
Fiquei impressionado como uma sala com mais de 400 pessoas ficou quieta a ponto de se escutar o roçar das fibras de tecido, dos movimentos de respiração da colega que estava ao meu lado. Temple, que sempre se veste como uma Texana, com lenço e medalhas, vestimenta perfeitamente imortalizadas por Claire Danes no documentário da HBO de 2010, que recebeu o prêmio Emmy, do Primetime, falou como reduzir o sofrimento dos animais, naquele evento, de uma forma que era evidente que ela entendia animais de um modo diferente. Quando voltamos para Cambridge, em um almoço num bar da Huntingdon Road, eu aprendi com meus colegas, que, de fato a Temple entendia animais de uma forma única, pois a condição dela, como autista, permitia que a mesma entendesse o mundo como uma sucessão de fotos, que é o consenso da academia sobre a percepção dos animais sobre o mundo. Eu voltei a encontrar a Temple nos Estados Unidos, onde fui concursado como Professor na Michigan State University e permaneci como chefe do grupo de pesquisa em bem-estar e comportamento animal por 10 anos. Nós dividimos uma paixão comum,
que rapidamente ambos reconhecemos. Nada atrai mais a minha atenção e a minha energia do que trabalhar como mentor de estudantes. Hoje meus dois filhos, o Maurício com 12 anos e a Isadora com 10 anos, também fazem parte deste universo contagiante que é o de acompanhar jornadas de crescimento e descobertas pessoais. A Temple ficou encantada com o modelo revolucionário de ensino interativo que eu criei, no ano 2000, para aprofundar junto aos estudantes questões complexas que envolvem comportamento animal, bem-estar animal, produtividade e conceitos éticos. O conceito, hoje adotado pela American Medical Veterinary Association, como modelo para o ensino de bemestar animal nas escolas de veterinária dos Estados Unidos, é  chamado de Animal  Welfare Judging/Assessment Competition, em tradução literal se chama de Competição para Avaliação de Bem-Estar Animal (http://www.awjac.org/). A Temple conheceu a
proposta, divulgou o conceito, participou como juíza nos eventos, escreveu sobre o assunto e conversou muito comigo sobre o impacto da forma interativa de ensino que desenvolvemos.
A nossa amizade continuou quando eu mudei para a Noruega, em 2006, depois para a Escócia, em 2011, pois nos encontramos com freqüência e retomamos as conversas de ações de interesse comum com muita rapidez. A Márcia, minha esposa, sempre me lembra do fato de que, em junho de 2006, quando eu assumi a vaga de professor titular na Escola de Veterinária da Noruega, em Oslo, eu viajei para acompanhar a Temple em um evento na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Éramos recém chegados na Noruega, com o Maurício com 18 meses, e a Márcia grávida de 7 meses da Isadora.
Fiquei feliz quando a Temple aprovou os protocolos de avaliação de bem-estar animal que desenvolvemos no projeto financiado pela União Européia (www.animal-welfareindicators.net),
pois eles passaram pelo crítico escrutínio dela sobre relevância prática, item que com freqüência critica os colegas da academia.
Quando eu convidei a Temple para vir a Pirassununga, já em 2013, quando ingressei na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia, da Universidade de São Paulo, juntos
desenvolvemos um plano de ação que precisou de 4 anos para ser finalmente executado.
A vinda da Temple para Pirassununga acontece em um período em que a Universidade de São Paulo e a comunidade de Pirassununga estão se aproximando, com muito
interesse. A cadeia de produção animal também está ganhando rápido conhecimento na área de bem-estar animal.
A Temple fala com a mesma eloqüência, elegância e conhecimento sobre assuntos que incomodam humanos e assuntos que incomodam animais. Mais do que isto, ela fala
com uma abordagem positiva, de alguém com um histórico de superação de uma condição que é extremamente complexa. A ciência continua buscando entender o
autismo em suas diversas formas, o que desafia um número crescente de pessoas no mundo. Pirassununga, pelo trabalho de excelência da APAE, é considerada como
referência nacional para o atendimento de crianças com autismo. A Universidade de São Paulo está estabelecendo um Centro de Excelência na área de bem-estar animal,
com enfoque em aspectos comparativos. A Temple vem revisar e avaliar o que fizemos na área de pesquisa, ensino e extensão em bem-estar animal e oferecer sugestões para a
nossa agenda futura.
Com o apoio da Prefeitura Municipal de Pirassununga, colocamos um programa ambicioso para recepcionar a Temple. Nos dias 04 e 05 de julho teremos uma conferência, que vai trazer profissionais e estudantes do Brasil e da América Latina, para que possamos discutir a temática do bem-estar animal, especialmente tratando das
ações relacionadas com avaliação de bem-estar, transporte e abate de animais. O apoio do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Secretaria da Agricultura
do Estado de São Paulo vai permitir avanços nas discussões dos marcos regulatórios sobre bem-estar dos animais. O maior interesse na visita da Temple é a proposta que desenvolvemos de dividir a experiência dela com a comunidade de Pirassununga em uma palestra promovida em colaboração com a APAE, no dia 05/07, no Centro de Convenções. Nesta palestra a Temple vai contar como a sua experiência com o autismo auxiliou na sua carreira acadêmica e profissional, desde o seu bacharelado em psicologia pela Franklin Pierce University, seguido por mestrado em zootecnia pela Arizona State University e doutorado pela University of Illinois, Urbana-Champaign. Temos também um inovador programa de aulas práticas no belo Campus Fernando Costa da Universidade de São Paulo, na tarde do dia 05/07. Vamos trabalhar com animais, em instalações cujo projeto foi inspirado no revolucionário conceito desenvolvido pela Temple, conhecido no Brasil
como curral anti-estresse. Também vamos demonstrar o uso de realidade virtual como ferramenta de treinamento na área de bem-estar animal.
Convidamos a todos para que acompanhem este evento histórico e nos ajudem a concretizar o plano que traçamos com a Temple, de aproximar esta bela cidade do rico Campus Fernando Costa da Universidade de São Paulo.
Inscrições:
Inscrição para módulo teórico: https://goo.gl/forms/J9yJxWyes9Bgh9Pn1
Inscrição para o módulo prático: https://goo.gl/forms/3HiFiN3AdysXLXCm1

Por: Prof. Dr. Adroaldo Zanella, da FMVZ/USP

 

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